Memórias Encontradas
Alto Rio Doce – A memória de uma cidade habita o último andar de uma casa
05/09/2026
Elas permanecem guardadas em jornais, documentos, fotografias, partituras, livros raros, objetos e coleções particulares. São vestígios da história de famílias, instituições, lugares e comunidades, preservados muitas vezes durante décadas por pessoas que simplesmente entenderam que não deveriam se perder. Eram memórias e precisavam ser preservadas.

O projeto Cuidadores da Memória, financiado pela lei Aldir Blanc e realizado pelo Instituto Histórico da Borda do Campo e Cercanias, iniciou seu percurso no último andar da casa do pesquisador Róbson José Moreira Abrantes, em Alto Rio Doce. Ali, o espaço originalmente destinado a ser um salão de festas, acabou sendo ocupado por jornais, fotografias, livros, documentos e objetos antigos. Tornou-se o Museu de Alto Rio Doce, nome pelo qual é carinhosamente conhecida a coleção particular reunida e preservada por Róbson ao longo de mais de quatro décadas.
Não se trata, ao menos por enquanto, de um museu público formalmente constituído. O acervo funciona dentro de sua residência e é mantido por iniciativa própria. No início, algumas pessoas chegaram a chamá-lo de “Museu do Róbson”, denominação que ele tratou de recusar: se os objetos e documentos contam a história da cidade, não faria sentido que o espaço levasse apenas o nome de quem os reuniu. A coleção é particular; a memória, em sua compreensão, pertence à comunidade.
Quando guardar se transforma em compromisso
Embora tenha nascido em Dores do Turvo, município vizinho, Róbson sempre esteve ligado a Alto Rio Doce, onde alguns ramos de sua família estão estabelecidos há gerações. Mudou-se para a cidade em 1980, aos vinte anos, e começou a perceber que as histórias contadas por seus pais, avós e pelas pessoas mais velhas estavam se perdendo.
Depois de cada falecimento, fotografias cujos personagens já não eram reconhecidos, jornais antigos, cartas, revistas e outros documentos deixavam, na maioria dos casos, de fazer sentido para os descendentes. Muitos acabavam no lixo ou no fogo. Róbson passou, então, a recolher o que podia. Primeiro vieram os materiais de sua própria família; depois, cópias de documentos e fotografias emprestados por moradores; por fim, quando a comunidade compreendeu a seriedade de seu trabalho, começaram a surgir também as doações, que continuam até hoje.
Essa trajetória ganhou impulso com a criação, em 1993, da Casa da Cultura de Alto Rio Doce, da qual Róbson foi o primeiro e único presidente, exercendo voluntariamente a função. A instituição pretendia promover pesquisas, exposições, palestras e outras atividades culturais, além de reunir um acervo destinado à formação de um museu municipal. Após sua desativação, Róbson deu continuidade, por iniciativa própria, ao trabalho de recolher, conservar e divulgar a história da cidade.
O que existe no Museu

É difícil resumir o acervo sem produzir uma lista interminável. Há jornais publicados desde o final do século XIX, revistas, livros, fotografias antigas, documentos, mapas, selos, cédulas, gravações, fitas cassete, móveis e centenas de objetos relacionados à educação, à saúde, à religião, à imprensa, à música e aos antigos ofícios, entre outros.
Entre máquinas de escrever, mimeógrafos, rádios, aparelhos de radiotelegrafia, carteiras escolares e instrumentos utilizados por dentistas, barbeiros, alfaiates, retratistas e professores, o visitante encontra transformações e evoluções que dificilmente poderiam ser compreendidas apenas por meio de textos. Para os mais jovens, alguns objetos já pertencem a um mundo quase indecifrável. Para os mais velhos, frequentemente despertam lembranças que também passam a integrar a história do acervo.

O Museu reúne ainda materiais sobre as escolas, o hospital, as festas religiosas, o carnaval, o futebol, as bandas de música, os prefeitos, os escritores, as antigas rádios e muitos outros aspectos da vida local. Não é apenas uma reunião de coisas antigas, mas um vasto conjunto de fontes a partir do qual ainda podem ser produzidas pesquisas sobre a formação histórica, social e cultural de Alto Rio Doce e de toda a região.
Para proporcionar uma visão mais ampla desse conjunto, Róbson José Moreira Abrantes, responsável pelo Museu, elaborou um inventário parcial de seu acervo.
Uma hemeroteca e algumas boas fofocas antigas
Alto Rio Doce, apesar das dimensões relativamente pequenas do município, conheceu ao longo de sua história pelo menos 36 títulos diferentes de jornais. Róbson conseguiu localizar exemplares de 22 deles, incluindo uma edição do periódico “O Alto Rio Doce”, publicada em 1895. Há jornais políticos, escolares, religiosos, informativos e humorísticos, alguns com nomes bastante sugestivos, como “O Espião”, “O Buscapé”, “O Pirolito” e “A Flecha”.
Os jornais antigos ajudam a compreender como a sociedade pensava, o que discutia, quais acontecimentos considerava importantes e como se organizavam suas disputas políticas e sociais. São também, convenhamos, uma excelente fonte de fofocas do passado, com a vantagem de que o transcurso de um século lhes conferiu respeitabilidade histórica.
Parte dos periódicos já está digitalizada e pode ser consultada no site do Museu de Alto Rio Doce, juntamente com fotografias, documentos e informações sobre a história local. Já se encontram disponíveis exemplares de jornais do período de 1922-1924, constituindo uma valiosa fonte de pesquisa e uma boa oportunidade para quem queira conhecer Alto Rio Doce pelas páginas que circularam entre seus antigos moradores.
Um acervo que também produz conhecimento
Róbson não se limitou a reunir e guardar materiais. Professor de Matemática por formação e pesquisador por vocação, utilizou o próprio acervo para produzir estudos sobre a história do município. Entre seus trabalhos estão o “Atlas Histórico e Geográfico do Município de Alto Rio Doce”, pesquisas sobre as escolas e os símbolos municipais e um livro dedicado à musicalidade alto-rio-docense, no qual recupera a trajetória das bandas que marcaram a vida cultural da cidade e da região.

Outros pesquisadores, dentre eles, o Dr. Geraldo Barroso de Carvalho e Rodrigo Guerra de Araújo, também já recorreram ao acervo para localizar periódicos, livros, fotografias e informações indispensáveis aos seus trabalhos. Ainda assim, a riqueza ali preservada está longe de ter sido inteiramente explorada. Há fontes para estudos sobre imprensa, política, educação, religiosidade, saúde, música, profissões, festas, relações familiares e vida cotidiana, além de muitos outros temas que provavelmente só surgirão quando os documentos forem conhecidos com maior profundidade.
Nesse sentido, o Museu não guarda apenas respostas. Guarda, sobretudo, perguntas à espera de pesquisadores.
Um museu de portas abertas
O acervo é particular, mas Róbson não o trata como propriedade fechada. Recebe gratuitamente estudantes, professores, pesquisadores, turistas e moradores interessados na história local. As visitas são realizadas mediante agendamento, pois o Museu funciona dentro de sua residência e depende de sua disponibilidade pessoal.
Turmas escolares frequentam o espaço para conhecer a história da cidade. Conforme o tema trabalhado pelos professores, Róbson prepara apresentações sobre educação, imprensa, musicalidade, religião, símbolos municipais, política, profissões antigas ou outros aspectos da história local. O conteúdo e a duração da visita podem ser adaptados aos interesses de cada grupo.

Em nossa primeira visita, a receptividade não se limitou à apresentação cuidadosa do acervo. Róbson fez questão de nos receber também com café e bolo preparado por sua esposa. A hospitalidade ajudou a confirmar aquilo que os documentos já demonstravam: naquele espaço, preservar a memória não é uma atividade burocrática, mas uma forma de acolher pessoas, compartilhar conhecimento e manter viva a história de Alto Rio Doce.
O Museu nasceu, afinal, de um gesto de acolhimento: acolher o jornal que seria descartado, a fotografia que já não encontrava quem reconhecesse seus personagens, o objeto que perdera sua utilidade e a história que corria o risco de desaparecer. Durante mais de quarenta anos, Róbson fez de sua casa um lugar onde essas memórias pudessem permanecer.
O acervo do Museu de Alto Rio Doce é uma riqueza imensa, ainda a ser plenamente conhecida e explorada. Mais do que apresentar respostas prontas, ele convida pesquisadores, estudantes e moradores a formular novas perguntas. É exatamente para isso que servem os arquivos vivos: permitir que cada documento encontrado abra caminho para outras histórias.
Visite o acervo
O Museu de Alto Rio Doce recebe visitas gratuitamente, mediante agendamento. O tempo e o conteúdo da visita podem ser adaptados aos interesses do grupo, das escolas ou dos pesquisadores.
Localização: Praça Cônego Pinto, 35, Alto Rio Doce, Minas Gerais
Contato: (32) 98478-5022 – combinar com Róbson José Moreira Abrantes
E-mail: robsonjoseabrantes@gmail.com
Museu virtual: robsonjoseabrantes.wixsite.com/museudealtoriodoce
